Por mares nunca dantes navegados?

Retornei a um lugar que nunca tinha ido. Sim eu fiz isso, e não é um paradoxo! Depois de longos 70 anos da vinda dos meus avós para o Brasil, eu decidi voltar a pátria ?descartada? por eles em busca de dias melhores além-mar. Pátria essa que durante séculos teve seu mais valoroso ?produto? na pauta de exportação ? era o capital humano! Durante mais de três séculos os portugueses engrossavam as fileiras das grandes, ou nem tanto, companhias de navegação em busca de um eldorado nem tão dourado assim?

No começo o sonho era o reino de Preste João, aquele rei que vivia com toda a riqueza em ouro a sua volta, e que os ibéricos buscavam a todo custo. Esse reino ?misterioso? e que vivia no imaginário popular foi ?avistado? em todos os continentes por onde a força ibérica colocou as mãos, mas nunca foi de fato encontrado. Outrora um lugar rico em ouro e prata, a Lusitânia, como assim era chamado Portugal, fora alvo de diversos saques ao longo da história, o mais famoso deles por Julio César, endividado até a alma por mais uma vez.

César atravessou o Tejo em busca de ouro. Não tinha intenção de conquistar ou povoar nada; o único objetivo do tirano era simplesmente saquear, pilhar e, em troca de perdão, exigir ouro, prata e o que tivesse de valor por onde passasse. Não satisfeito marchou para o norte, onde encontrou seu próprio ?Eldorado?. O ?Douro?, como era conhecido, tinha na origem do nome ?de ouro?, lugar onde se encontravam as melhores minas da Lusitânia, que chegavam a 200 metros na encosta do rio.

César enriqueceu. Logo já tinha posses em diversos pontos do território Luso; estabelecido no Alentejo, mandava carregamentos monstruosos de lingotes de ouro para Roma. Rico ele ficou! Aliás, conseguiu limpar seu nome do ?serasa? com rapidez. Evidentemente previsível, com a grana que acumulou entrou em uma campanha política e, com compra de votos suficientes, se elegeu e fortaleceu-se para uma nova empreitada contra os Países Baixos e a Inglaterra (riqueza ilegal, compra de votos e poder ditatorial? que coisa isso, hein? Parece que o tempo parou!).

Claro que minha intenção não é entrar de cabeça na história Lusitana, nem tenho talento para tanto, nem é este o foco deste trabalho, quis apenas mostrar que, como sempre, o caçador já teve seus dias de caça. Como o meu objetivo é falar da vinda de meu avô ao Brasil, passemos então ao começo do século XX, mais exatamente em 1925 quando, por fuga de condições de vida miseráveis, teve que entrar em um vapor na cidade do Porto e partir para o Brasil.

Portugal estava no seu sétimo presidente desde a instauração da república, na chamada ?república velha?. Seu presidente era Manuel Teixeira Gomes, o ?presidente-escritor? como era conhecido pelo povo. Intelectual com passagem pela famosa Universidade de Coimbra, governava, por ironia, um país com quase 70% de analfabetos; e meu avô era um desses que engrossavam as estatísticas mais cruéis para o desenvolvimento de um país.

?Não sabe assinar?, o texto que constava na grande maioria dos documentos portugueses

Claro que esse avô teve nome, se chamava Inácio, filho do meio de uma família de lavradores no norte do país, mais precisamente na região dos Trás-os-Montes. Nasceu apenas Ignácio, tendo por tradição portuguesa adotado o nome do pai (Nunes) e da mãe (Costa) já em idade adulta. A força da lavoura ? atividade reinante naquele lugarejo ? lhe caiu não como um dom a ser passado de pai para filho, mas como um fardo a ser repartido na ajuda diária de levar o pão para a mesa, nem sempre farta e nem sempre composta?

Portugal do início do século XX era um país falido, com um custo de vida elevadíssimo e uma inflação galopante, que tirava não apenas o pão, mas a dignidade de qualquer um, principalmente dos jovens analfabetos que, sem a mesma chance dos patrícios da capital, eram alvos fáceis na ilusão muitas vezes contada em inúmeras cartas de parentes que enviavam, d?além-mar, relatos de um país que sempre permeou o imaginário lusitano.

Meu avô estava com 18 anos quando decidiu, em uma visita ao Porto, procurar algo mais. Caminhando pela Ribeira das Naus em busca de trabalho, encontrou um amigo de infância que, com pouco tempo de conversa, lhe convenceu a juntar o pouco que tinha e comprar um bilhete para o Rio de Janeiro. Um de seus irmãos já se encontrava por cá, mas pouco ou nenhuma carta ele enviara contando se encontrou aqui o paraíso? ou o inferno! De qualquer forma isso pouco importava diante da realidade dura da vida trasmontana?

Torgueda é uma aldeia que fica ao Norte de Vila Real, capital da província de Trás-os-Montes, lugarejo feito de pedra, que em 1925 contava com 1.500 habitantes, hoje com 1.300. Lógico que o declínio de natalidade afeta o país como um todo, principalmente nos dias atuais. Esse lugar era a cidade de seu Ignácio, onde aprendera a dura vida de filho de um lavrador falido e rude. Fugira da escola para ganhar um dinheiro qualquer e ajudar em casa. Ele sequer aprendeu a ler?

No Brasil Inácio casou-se com Angelina, também imigrante portuguesa

Não éramos mais aquele país dos sonhos de tantos lusitanos por tantos séculos, mas éramos prósperos como nação. O Rio era a capital ? o tambor de ressonância do país. Tudo passava por aqui! Cidade das colinas, dos mares e dos mangues, cidade com maior população negra do país, fruto de uma escravidão cruel e sem precedente. Cidade quente, cidade chuvosa, cidade maravilhosa; à época, sem esse título ainda. Cidade dos bondes, dos malandros da Lapa, da burguesia que frequentava a Rua do Ouvidor, cidade sem carros quase, cidade dos ?burros-sem-rabos?, dos ?secos & molhados? e do verdadeiro ?butequim? de esquina, onde se encontrava o verdadeiro seu ?Manuel?. Esse é o Rio que ele encontrou, um Rio em ebulição e mutação, um verdadeiro choque social, cultural e econômico para quem, como ele, chegou aqui sem um puto no bolso e com pouca ideia de como sobreviver nesta selva.

Essa poderia ser a história de inúmeros imigrantes que vieram em várias épocas ao Brasil. Não foram poucos os fluxos imigratórios para nosso país, e continua assim nos dias atuais. Obvio que na época citada tudo era mais complexo; sem profissão o imigrante estava sujeito a trabalhos quase escravos, foi o caso de meu avô. Foi de cuidador de pocilga, passando por burro-sem-rabo e outra inúmeras ?profissões?.

O fato curioso neste conto é que em nenhum momento de sua vida ele quis voltar à sua terra, apesar de amá-la, o que me relatara em diversas ocasiões. Ele se recusava terminantemente a voltar, era como se fosse uma negação ao lugar que o abrigou na infância; talvez a decepção de não ter podido continuar em sua terra natal; talvez o fato de não ter tido oportunidades de progresso antes de decidir abandoná-la o tenha levado a ter um distanciamento ao longo de sua vida no Brasil.

Uma vez conversando com ele, morávamos no Morro de São Carlos, no boêmio bairro do Estácio, fiz uma pergunta com naturalidade, sem esperar muito pela resposta. Estávamos falando sobre Portugal mesmo, situação econômica, etc e tal?

  • Vô, por que diabos não volta à sua terra, nem que seja para visitar, já ofereceram passagem e tudo!

  • Lá não coloco mais os pés, não tenho mais nada o que fazer naquele lugar, o tenho guardado aqui como lembrança de infância. E não foram bons tempos para ficar relembrando! ? disse sem me encarar, olhando um vazio ao meu lado, mas eu insisti.

  • Mas isso tudo é passado, acho que poderia dar uma chance e voltar, tem irmãos lá ainda, sobrinhos e muito mais?

  • Não adianta, lá não volto mais, e se insiste tanto, volte lá por mim, vá lá em Torgueda. Visite minha terra, veja como a vida lá é dura, aí você vai entender por que não volto mais!

Sim, eu ?voltei? a Torgueda algum tempo depois dele ter ido embora? aliás, bastante tempo depois! Levei suas palavras comigo, e as muitas lembranças que consegui ?tirar? dele antes da partida, lembranças que me foram úteis ao chegar à cidade, lembranças que se tornaram para mim um Déjà vu.

Vislumbrei uma cidade diferente e um país bem mais atraente para seus jovens. Mas isso é para o próximo papo aqui. Até mais, ó pá!?