Prazo de validade

Música boa envelhece?Música boa envelhece?

Sim, há músicas que nunca envelhecem. Nem a letra, a melodia ou mesmo uma gravação específica. O álbum de Sinatra e Tom Jobim é um exemplo. Tomorrow Never Knows, dos Beatles, estava tão à frente de seu tempo que até hoje ecos de sua transgressão sonora estão por aí, influenciando músicos pelo planeta. E ao ouvi-la, apesar de intimamente ligada ao psicodelismo vigente em 1967, ela parece atual. Benjor também conseguiu muito neste campo. O Kraftwerk, idem.

Agora, há canções que estão definitivamente datadas e já nasceram assim. Semana passada, enquanto Veri Gruber e eu apresentávamos o Mondo Pop 80 na Univali FM, passou pela nossa frente uma versão remixada de um dos primeiros sucessos do Biquíni Cavadão (o nome da banda já é extremamente vinculado aos anos 80), chamado No Mundo da Lua. Hoje, o vocalista do Biquíni, Bruno Gouveia, está beirando os 50 anos. Pense nele entoando os seguintes versos no palco:
Não quero mais ouvir/a minha mãe reclamar/quando eu entrar no banheiro/ligar o chuveiro e não me molhar.
Na época em que foi lançada, 1986, ganhou os corações adolescentes com sua temática onanista. Hoje, soaria no mínimo estranho um cinquentão em tamanho choque de gerações, apesar de cada vez mais os filhos demorarem a sair da casa dos pais. Mas Bruno parece não se incomodar com isso: no último disco ao vivo da banda, No Mundo da Lua está lá.

Da mesma forma, os Stones ainda cantam (I Can´t Get No) Satisfaction, mesmo que os tempos de insatisfação, carência e rebeldia de Mick Jagger e Keith Richards tenham ficado em 1965, quando ela foi lançada. Já o The Who envelheceu, e Pete Townshend, autor de My Generation, e Roger Daltrey, que a cantou anos a fio, são obrigados a conviver com os versos que alegavam preferir morrer antes de ficar velho. Keith Moon e John Entwistle levaram a sério, e não estão mais aqui para ostentar o grito rebelde dos anos 1960.
De qualquer forma, as canções representam, como se fosse uma cápsula do tempo, os anseios, dúvidas, angústias e discursos de toda uma geração ou mesmo as questões existenciais de seus compositores. Estão aí para mostrar que tudo muda. Ou não.