Programação cultural de verdade em abril

Entrando no mês de abril, lembramos logo da fama do primeiro dia do mês: o dia da mentira! Mas falemos a verdade: na verdade, o que é a mentira? Resumidamente, seria o que não é verdade. OK! Mas o que é a verdade? Ih, se o papo continuar, a conversa pode ser longa, gerar muitas controvérsias e enveredar por muitas filosofias. Podemos, enfim, pensar o que o mês de abril e sua programação cultural nos faz pensar, quando se trata de mentiras e verdades! Ou das muitas verdades possíveis!

* Teatro: ?Doze homens e uma sentença?*

Uma primeira sugestão é o espetáculo teatral ?Doze homens e uma sentença? em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro, que faz temporada de sucesso e vai apenas até 14 de abril. O espetáculo apresenta como mote principal o jogo de forças entre a flexibilidade da interpretação humana dos fatos e a rigidez da lei.

A trama apresenta um adolescente de 16 anos que, por ser acusado de assassinar o pai, será julgado por um tribunal formado por 12 homens, que decidirão sobre a vida do acusado: culpado ou inocente? E por consequência: morto ou vivo? O espetáculo tem recebido elogios e vem lotando o teatro!

A peça "Doze homens e uma sentença" faz temporada de sucessoA peça ?Doze homens e uma sentença? faz temporada de sucesso

A encenação teve uma primeira montagem paulista em 2010, ganhando o prêmio APCA de melhor espetáculo. No Rio, houve muitas mudanças no elenco, mantendo-se apenas Genézio de Barros e Norival Rizzo.

O texto, escrito para teleteatro, transformou-se em um clássico do cinema americano, dirigido por Sidney Lumet (1957), vindo em seguida para os palcos em 1964. Percebe-se nessa montagem, do renomado diretor Eduardo Tolentino, uma proposta mais pela reflexão do que pela descoberta da ?verdade?. Corre lá !!!

* Infantil: ?A fada que tinha ideias?*

Ainda falando de reflexões sobre a verdade e a rigidez das coisas, estreia sábado 05 de abril, no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, a montagem teatral de ?A fada que tinha ideias?, baseada no livro de grande sucesso de Fernanda Lopes de Almeida, lançado no início dos anos 70. Voltada para o público infantil, a história apresenta uma fada de 10 anos, chamada Clara Luz, que mora no céu e decide inventar suas próprias mágicas, rejeitando as ?verdades? contidas no tradicional livro das fadas.

Com isso, Clara Luz começa a ter muitas ideias novas, e passa a levar a vida a cantar, inventar, questionar e encontrar novos ângulos para as coisas; e acaba revolucionando a vida de todos no céu. Luisa Capri, que encarna a protagonista, é filha do ator Herson Capri, que dirige a montagem junto com a esposa Susana Garcia, mãe de Luisa. O casal ainda assina a adaptação.

O livro, já indicado pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ) como uma das cinco melhores obras infantis brasileiras, e fazendo parte da bibliografia de literatura infantil da UNESCO (1970), chega aos palcos por uma equipe de primeira, e quem não for? vai perder a chance de inventar suas próprias ?mágicas?!

* Cinema: ?Entre nós?*

Também sobre a verdade, nesse caso a verdade sobre uma autoria, se apóia o principal conflito de um filme nacional que acaba de estrear, ?Entre nós?, protagonizado por Caio Blat, Maria Ribeiro, Carolina Dieckmann, Paulinho Vilhena e Júlio Andrade, e dirigido por Paulo Morelli (Cidade dos Homens).

O elogiado elenco de "Entre Nós"O elogiado elenco de ?Entre Nós?, filme que acaba de estrear nos cinemas

Na história, sete jovens amigos escritores viajam para uma casa de campo e celebram a publicação do primeiro livro do grupo. Na viagem, eles escrevem cartas, enterram-nas no quintal, com a ideia de abri-las no futuro. Só que a viagem termina em uma tragédia após a morte de um dos amigos. Ainda assim, eles decidem se reunir dez anos depois para lerem as cartas.

O ator Caio Blat protagoniza o filme no papel do escritor Felipe, que talvez tenha conquistado o sucesso na carreira às custas da tragédia. E surge a questão: ?De quem é a autoria de uma obra??. Na verdade a questão da veracidade das autorias é bastante atual, ainda mais a autoria das ideias. O filme desenvolve várias outras questões sutis sob as aparências da normalidade, principalmente o processo de amadurecimento pessoal e profissional, e tem recebido elogios gerais para direção, fotografia, edição, além do elenco, claro, e vale a pena ser visto!

* Exposição: ?Resistir é preciso?*

Em virtude da recente marca de 50 anos do Golpe Militar de 64, é impossível não mencionar as ações culturais que relembram a data, e o período histórico. Até porque, seguindo nosso tema, foi um momento marcado por repressão política com prática de torturas e perseguições, as quais eram mentirosamente negadas pela imprensa oficial e pelo Governo, a ponto de haver parte da população que, na época, não acreditava sequer estar havendo tortura no País.

"Resistir é preciso" traz a reflexão do período da Ditadura Militar?Resistir é preciso? traz a reflexão do período da Ditadura Militar

Dentre as ações que abordam o tema, está em cartaz, no Centro Cultural Banco do Brasil, até 28 de abril, a exposição ?Resistir é preciso?. Criada pelo Instituto Vladimir Herzog, a exposição mostra a memória da resistência da imprensa brasileira contra a ditadura militar, abordando obras de arte, cartazes, fotografias e depoimentos em vídeos, compreendidas em uma linha do tempo que vai de 1964 a 1985.

Fazem parte da exposição: a coleção do jornalista e ex-preso Alípio de Freire, com obras de Flávio Império e Sérgio Ferro do período em que estiveram presos, além de ilustrações de Rubem Grilo, publicadas no Pasquim. A reflexão sobre o tema é bem apropriada, principalmente se lembrarmos que nas últimas semanas foi noticiado que há pessoas que defendem a volta da ditadura militar! Não dá pra saber o que é mais assustador: a mentira defendida por alguns de que o Estado ?não democrático? de uma ditadura pode ser bom, como teria sido o falso Milagre Econômico dos anos 60 e 70; ou a verdade aterradora de que um País praticamente sem educação e sem memória está sempre sujeito às manipulações que nos conduzem a defender ideias absurdas.

A verdade é que tem muita gente que ainda prefere se sentar seguramente no sofá de uma mentira bem criada e digerível, do que encarar de pé as verdades difíceis de engolir no caminho para a cidadania!*
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