Réu, confesso

O Réu e o Rei

Estou lendo o livro de Paulo César de Araújo que narra toda o seu esforço no sentido de pesquisar a MPB e elaborar a biografia banida de Roberto Carlos. No e-mail que mandei a ele, tento fazer justiça ao seu trabalho e me posicionar, como já fiz no ar, pela Univali FM, em favor da liberdade de expressão. Roberto Carlos fez um desserviço à literatura e à arte ao, mimadamente, entrar na Justiça contra Paulo César de Araújo, jogando no lixo 15 anos de trabalho árduo e realizado com extremo cuidado.

“Prezado Paulo César:

Réu, confesso que, a exemplo do então ministro da Cultura, Gilberto Gil, li Roberto Carlos em Detalhes de uma cópia pirata, saída da web. E me senti em débito, pois um trabalho feito com tanto carinho e critério deve ser recompensado. Até com a intenção de me redimir e finalmente reverter em seu favor o quinhão merecido, comprei O Réu e o Rei.

Conheço o repertório de Roberto Carlos muito mais do que gostaria. Além de sofrer o bombardeio da mídia que reserva a ele um espaço enorme, minha mãe era uma entre os tais fãs incondicionais -até meados dos anos 1980, quando ela passou a me dar razão, entendendo que estava sendo enganada, comprando o mesmo disco todos os anos- e eu ouvia intermináveis vezes seus lançamentos natalinos.

As quatro músicas de RC que gosto não são dele: Pra Ser Só Minha Mulher é de Ronnie Von e Tony Osanah; Outra Vez é de Isolda; Aceito Seu Coração de um obscuro autor chamado Puruca. E Quero Que Vá Tudo Pro Inferno foi renegada. Logo, se seus dois livros não fossem suficientemente bons, não teria concluído a leitura.

Me posicionei enfaticamente no programa de rádio que conduzo contra o que considerei uma censura à liberdade de expressão quando do episódio que tanto o afetou. E fiquei ainda mais condoído ao ler seu último trabalho, com as injustiças seguidas expostas em O Réu e o Rei. Mas as passagens que mostraram a grandeza de ícones como Tom Jobim e João Gilberto e como você construiu sua trajetória com tanto esforço, superando as dificuldades imensas de quem já começou o jogo perdendo de goleada, migrante nordestino e com uma formação escolar inconsistente, como grande parte dos brasileiros, me emocionaram.

Se Roberto Carlos saiu desta história toda bem menor do que entrou, certamente com você aconteceu o inverso. Com absoluto mérito.”