O que Sartre pode nos ensinar sobre o existencialismo!

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?Eu chegara ao nada, e o nada era vivo?. ? Clarice Lispector.

Olá, caro leitor. Neste mês iremos entender alguns conceitos do filósofo Jean Paul Sartre. Esse pensador é muito citado sobre as questões sobre a liberdade; e também, um inaugurador de uma corrente filosófica chamada de: ?existencialismo?.

Essa linha filosófica ganhou fama no mundo inteiro. Principalmente na segunda metade do século XX. Não somente através de livros técnicos de filosofia, como também em romances que pensam o homem como um ser que só pode ter uma certeza: a sua própria existência. Diga-se de passagem, a famosa escritora Clarice Lispector, escreveu diversas obras com essa marca existencialista. Ao final do artigo irei deixar como sugestão um livro da autora que tem essa ?pegada? filosófica.

Bem, vamos lá?

I ? O ser em si e o para si ? Os Primeiros Conceitos de Sartre

Para Sartre existem dois tipos de entes na realidade; um que ele denominou o ?em si? (ou seja, aquilo que é) e outra a que ele chamou de ?para si? (o nada).

O ?em si? seria algo que possui ser, porém, não possui consciência de ser algo (por exemplo, uma cadeira pode ser pensada como um ser ?em si?, pois ela existe, mas não tem consciência de existir). O ser em si, segundo Sartre, é: opaco, fechado e não possui consciência. Em contraposição ao ?em si? existe o ?para si? (o homem) que não possui um ser definido. Para o francês o homem não possui nenhuma essência que possa defini-lo a priori em relação à existência.

Dito de uma maneira mais simples: O homem é algo, somente, quando ele está dentro do mundo, pois, sua existência só faz sentido dentro de uma experiência real.

Não existe um Deus (uma essência) em contraposição ao homem, dirá Sartre. No existencialismo a existência terá mais importância que a essência. Sartre irá conceituar as filosofias existencialistas e seus autores com essa característica própria: ?O que eles tem em comum (ou seja os filósofos existencialistas) é simplesmente o fato de considerarem que a existência precede a essência? ( SARTRE, 1970, p. 23).

O ?para si? é um nada que é: aberto, livre, consciente e responsável sobre o seu próprio existir. Importante saber! Em Sartre quando falamos de ?Homem? e o ?Nada? estamos dizendo a mesma coisa.

II ? O homem em liberdade.

A obra do filósofo é em sua maior parte uma análise das relações do ?para si? dentro do mundo, ou seja, o homem ao manter uma relação dialógica com outras consciências e com outras coisas do mundo ?em si? faz uma ação muito própria e característica sua: projetar-se no mundo. Ao projetar-se ele exerce uma ou talvez a sua principal ação dentro do real, segundo Sartre, que é: a capacidade de livremente escolher suas ações e seus atos.

Jean Paul Sartre argumenta que o homem não é algo que pode ser definido em sentido ontológico (ou seja, o homem não tem uma essência pré- determinada), embora ele (o homem) tente sempre por várias formas dentro da sociedade ?vir a ser? alguma coisa estática e petrificada. Essa consciência que possui uma intencionalidade dentro da realidade deve, pois, descobrir a si mesmo como um homem sempre em potência para escolher livremente suas ações. ?Pois queremos dizer que o homem existe antes de tudo, ou seja, que o homem é antes de tudo, aquilo que projeta vir a ser, e aquilo que tem consciência de projetar vir a ser? (IDEM, p. 26).

O filósofo aqui, ao caracterizar a liberdade do homem como sendo um fator decisivo, também chega a sua célebre conclusão: ?que o homem está condenado a ser livre?, ou seja, é parte da característica dessa consciência humana escolher, ainda que essa escolha não seja feita de maneira totalmente ?consciente?.

O homem sempre escolhe; pois, ainda que escolha não escolher, estará sempre escolhendo, argumentará Sartre. Ou seja, estará sempre sendo ?atravessado? de coisas que podem vir a ser, pois o homem sendo esse canal ?nadificante? por onde tudo pode passar, não pode ser definido de maneira totalmente precisa através de conceitos; mas deve ser pensado na sua concretude real, livre e existencial.

Estamos jogados no mundo, dirá Sartre. A nossa existência é a única coisa real. Para o filósofo não existe um ente metafísico (como Deus, por exemplo) que nos deu uma essência imortal. O homem é apenas contingente, efêmero, existência e um grande ?nada? que se faz dentro do seu próprio existir.

III ? A má fé e a gratuidade?

Sartre dirá que o homem tem a tendência de desempenhar papéis diversos dentro da sociedade, porém, esses papéis sociais tendem a fazer o homem a torna-se um ?em si?.

Dito de outro modo: o homem tem a tendência para coisificar-se, de tornar-se sua consciência algo não consciente.

Exemplo: Alguém que estuda para ser um médico. Sartre dirá que esse papel social é apenas uma máscara social. Porém, o homem não pode mentir para si mesmo. Ele dentro da sociedade pode desempenhar uma função de médico, porém, ele poderia ter escolhido desempenhar qualquer outra função. Mas, por quê?

Simplesmente porque o homem é somente um nada que escolhe ser algo, dirá o filósofo. Porém essa escolha é apenas uma escolha, simplesmente um ato voluntário, uma ação de uma consciência livre. Ao decidir ?coisificar-se?, ao tentar torna-se algo (mesmo ontologicamente sendo um nada); o homem estaria agindo, segundo o filósofo, pelo comportamento de má fé. O mesmo nada mais é do que: tentar ser alquilo que não é.

A vida autêntica ideal para o homem, segundo este filósofo, é o reconhecimento de toda a ?náusea existencial? que pode atingir o homem; e mesmo assim ele (o homem) deverá afirmar sua existência e a sua total responsabilidade pelos seus atos e ações morais. Ao perceber assim a gratuidade do existir o ser humano deverá sentir-se angustiado e nauseado perante tamanha responsabilidade de suas ações morais; porém, ao mesmo tempo, perceber-se como totalmente livre em face às contradições das quais vive.

Na filosofia de Sartre o homem escolhe ser quem quiser no mundo, embora todo e qualquer ato moral será sua responsabilidade. Como não existe uma essência (um Deus, uma alma imortal, dentre outros) não se pode esperar punições, castigos ou destinos. ?Assim, a primeira decorrência do existencialismo é colocar todo homem em posse daquilo que ele é, e fazer repousar sobre ele a responsabilidade total por sua existência?. (IDEM, p.26).

Em Sartre, somos apenas nós que escolhemos e decidimos o que iremos fazer, porém devemos arcar com as responsabilidades de todos os nossos atos. Toda a filosofia do francês busca apenas dizer isso ao homem: você é tão livre que está preso dentro da sua própria liberdade. O que você deve saber é que nunca poderá sair disso. Mas ao estar consciente de que o homem é um ser que está se projetando e existindo no mundo, o mesmo poderá ter uma reflexão mais crítica e existir sem se enganar ou mentir para si mesmo.

Diz o filósofo: ?Você é livre, escolha, ou seja, invente. Nenhuma regra de uma moral genérica pode indicar o que devemos fazer; não existem
sinais outorgados no mundo?
(IDEM, 1970, p. 38).

IV ? Uma imagem vale mais que mil palavras!

Percebam a foto abaixo. Essa foto é a representação perfeita da filosofia de Sartre.

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Um homem que ao projetar-se projeta apenas a si mesmo (a sua sombra no mundo). Nada o pré-determinou. Tudo é ele que cria. Sobre tudo ele é responsável. O olhar atento de Sartre, andando consciente dentro da sua própria e existência no mundo, mostra o que é ser um filósofo autêntico.

 
 
V ? A Conclusão
 

Sartre pode ser pensado como um filósofo da liberdade, pois, seus argumentos nos provocam a pensar que: quaisquer decisões de sucesso ou de fracasso serão sempre derivadas de uma causa ou resultado humano. Daí a ?dureza? dessa filosofia que embora difícil, ainda hoje, nos provoca reflexões, consensos ou até mesmo, divergências dentro da história do pensamento ocidental.

Referencias bibliográficas:

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada ? Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 1997.

 
Sartre, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Lisboa: Editorial Presença, 1970

Romance- Ótimo para entender a perspectiva existencialista. ( Texto bem menos denso)

Lispector, Clarice. A paixão segundo G.H. Nova fronteira. 1979.