Sem pé nem cabeça

Não há responsabilidade sem consequências. É assim em tudo na vida, exceto no futebol, a julgar pelas declarações do técnico da seleção brasileira.

Assim que o árbitro apitou o final da humilhante derrota dos brasileiros para os alemães no Mineirão, Felipão foi para o campo e, gesticulando para o mundo todo ver, parecia que estava disposto a assumir seus erros, e também os erros dos jogadores e de quem mais pudesse ser questionado por aquele 7 x 1, do massagista ao presidente da CBF.

Não era um gesto sincero, pelo que se viu na entrevista coletiva após a partida. Da boca para fora, Luiz Felipe Scolari até disse que era o responsável pelo maior vexame da história do futebol do País. Seu discurso, porém, cai no vazio, pois não vem acompanhado de qualquer consequência.

felipaoCampeão em 2002, Felipão não evoluiu e manchou sua história na seleção

Vão dizer que o futebol é apenas um esporte, que há coisas mais importantes na vida, que tudo passa. Não é bem assim, em especial no Brasil, onde o futebol representa o sonho das crianças, a redenção de um povo sem expectativas fora das quatro linhas.

Lotamos os estádios, as ruas ficaram em festa, e por quase 30 dias esquecemos que nosso dinheiro suado foi desviado para a construção de suntuosos estádios superfaturados. Me arrisco a dizer que, na opinião da esmagadora maioria da população, os gastos teriam valido a pena se ao final a taça fosse levantada pelo nosso capitão, ou mesmo se tivéssemos perdido com dignidade, mostrando ao mundo como se joga com a bola nos pés, como na Copa de 82.

A seleção de 82 encantou pelo futebol apresentado, embora não tenha vencido a copaA seleção de 82 encantou pelo futebol apresentado, embora não tenha vencido a Copa

E para aquele que se disse o grande responsável pelo choro das crianças, pela dor dos humilhados, quais as consequências? Não ouvi ele dizer que vai devolver o polpudo salário que recebeu durante todo este tempo em que deveria estar preparando a seleção. Ou que vai reverter estes recursos para construir escolinhas de futebol especializadas em ensinar as crianças a driblar e marcar gols. Ou que simplesmente vai se afastar para sempre do futebol, para o bem do velho esporte bretão. Nada. Felipão é, assumidamente o responsável, mas isto não significa nada.

Na mesma entrevista, Scolari disse ainda não ter arrependimentos. Assumir a culpa, sem arrependimentos nem consequências, é ato de arrogância, de alguém que se julga acima do bem e do mal, que se acha em condições de servir de escudo para um grupo fracassado.

O Brasil está cansado dos felipões, dos parreiras, dos retranqueiros covardes. Se este vexame pode servir para algo, que seja para admitir que estamos atrasados em nossos conceitos sobre o futebol, que não evoluímos, como nos esfregaram na cara durante anos nossos decadentes campeonatos estaduais e nacionais.

A decepção com a seleção não será redimida com desculpas vaziasA decepção com a seleção não será redimida com desculpas vazias

Muita coisa tem que mudar no futebol brasileiro. Da formação dos atletas na divisão de base dos clubes aos desvios da legislação. De imediato, porém, cairia muito bem a contratação de um técnico estrangeiro, um treinador de ponta da Europa para o comando da seleção brasileira.

Seria um belo começo, jogando por terra preconceitos descabidos e enterrando o corporativismo que existe no nosso futebol. Para a seleção canarinho respirar novos ares, para sacudir nossos ?professores? e colocá-los de volta nas salas de aula, para que os jogadores brasileiros, que já jogam lá fora, sejam acompanhados por alguém que realmente conhece suas qualidades e limitações.

Das grandes derrotas surgem as verdadeiras lições, mas se continuarmos tapando o sol com a peneira o futebol brasileiro vai ficar de vez na sombra de seu passado, jogando um futebol sem pé e (principalmente) sem cabeça.