Sempre Dorival

Dorival Caymmi, O Mar e o TempoDorival Caymmi, O Mar e o Tempo

Terminei de ler a biografia de Dorival Caymmi, O tempo e o mar, escrita por sua neta, Stella. A obra reúne em um calhamaço de mais de 500 páginas uma abrangente narrativa do que foi a vida de um dos compositores mais importantes do Brasil. Caymmi representa um sopro de modernidade no Brasil dos anos 1930 e 40, e ao mesmo tempo, o elo que permitiu o nascimento da Bossa Nova e, por conseguinte, a nova geração que se seguiu a ela, de Chico, Caetano, Gil e os demais nascidos à época dos festivais.

Se é prazeroso falar de sua música, escrever sem maiores comprometimentos com o rigor de uma biografia isenta e imparcial deve ter sido, para a autora, um verdadeiro passeio. Não é da mesma forma para quem gostaria de um maior distanciamento entre o biografado e seu biógrafo. Stella deixa claro que escreve como neta, por vezes assumindo a primeira pessoa na narrativa.

Interessante é saber como Dorival se ressentia de alguns colegas que, por vezes, desprezavam sua música. E, também, de sua proximidade com Jorge Amado e a braveza de Stella Maris, sua esposa por quase 70 anos. Aliás, Stella, a neta, é bastante benevolente, pois André Midani, em sua autobiografia, conta como Dorival era devidamente “convidado” a deixar a boemia e voltar para casa sob os safanões de sua amada mineira. Acontece que eu sou baiano, acontece que ela não é, cantou com propriedade o Buda Nagô homenageado com extrema felicidade por Gilberto Gil.

Caymmi é uma instituição nacional. O que não me impede de ter ficado desapontado ao conhecer um episódio pouco comentado de sua biografia. Caymmi, além de receber seu nome em uma praça e uma avenida em vida, em Salvador, ganhou de presente em 1968 uma casa à sua escolha na capital baiana, presente do governador Luis Vianna Filho. Eu seria hipócrita ao criticar Paulo Maluf, que usou dinheiro público para presentear com um automóvel cada jogador da seleção de 1970, e não lamentar que Caymmi não tivesse recusado tal honraria dada com dinheiro alheio.

Caymmi compôs relativamente pouco. Em média, quase uma canção por ano de vida. Mas as fazia com tamanha simplicidade genial que, a seu modo, cada uma delas iria valer por dezenas. Basta ouvir O Mar, Nem Eu, Das Rosas, Marina, Saudade da Bahia, A Vizinha do Lado, Acalanto e tantas outras para perceber como é incomparável, único, fundamental. E humano o bastante para errar, em meio a incontáveis acertos.