?...sin perder la ternura jamás."

Há alguns anos, eu e minha ex-mulher estávamos decidindo uma viagem de férias, e ficamos entre Espanha  e Cuba. Claro que à primeira vista a opção da Espanha era mais tentadora, mas a veia jornalística dos dois prevaleceu: nosso destino seria a Ilha mais famosa do mundo, a Ilha de Castro, Che e Cienfuegos?e de Fulgêncio Batista também, porque não? Os estudiosos da Revolução mais importante do Século XX vão me crucificar ao verem enfronhado neste contexto o nome de Fulgêncio junto ao de Castro, mas quem conhece Cuba tem a certeza de que há um pedaço de cada um envolvido na Revolução de 1959, quando um grupo de visionários, munidos de parcas armas mas com uma vontade e uma ideologia maiores do que qualquer exército até então conhecidos, desembarcaram, ou naufragaram, na Ilha com o objetivo de derrubar um regime ditatorial de décadas.

Mesmo após tantos anos desde esses episódios, desembarcar em Cuba é uma grande aventura, e não fomos no famoso iate Granma, fomos de Boeing mesmo. Na época não havia voo direto para Havana e tivemos que fazer uma escala cansativa na cidade do Panamá, mas a nossa vontade era tanta dessa aventura, ou desse ?mergulho? na história da Ilha, que qualquer demora se tornava minúscula diante da ansiedade de ?invadir? Cuba.

Chegamos a Havana numa tarde clara, luz bonita, a cidade que começava a se descortinar diante de nossos olhos ? e, lógico, da minha lente também -, era uma cidade adormecida como se o tempo estivesse em pausa. O ano poderia ser qualquer um da década de 50. Óbvio que sabíamos, eu e Marisa, que não seria uma viagem qualquer de turismo, nada é banal na Ilha a não ser a supressão de liberdade que o regime impõe.

Eu, devidamente contaminado pelas biografias que tinha lido sobre Che, me senti um verdadeiro guerrilheiro ao desembarcar na Playa las Coloradas, munido de máquinas fotográficas em vez de fuzis. Aliás, era essa uma das profissões de Ernesto Guevara antes de se tornar o Che: fotógrafo!

Iniciamos nossa viagem por Havana, porém queríamos conhecer mais a Ilha. Não nos importava ver praias bonitas, embora não faltassem essas incríveis paisagens por lá. Queríamos ir onde a história se desenrolou: Santa Clara, Sierra Maestra, Matanzas, Santiago de Cuba, etc.

Não é fácil se deslocar pela Ilha, tudo lá é restritivo, além da frota de carros muito antiga (fato bastante conhecido), o que dificultava o aluguel desses veículos, mesmo sendo permitido. Contratamos o serviço de um guia de turismo, sem o qual não conseguiríamos nos deslocar para lugar algum. Lá é fundamental ter sempre um guia oficial para esse fim. Esperamos alguns minutos na porta do hotel, vez que chega uma van daquelas coreanas, acho que a ?Besta? mesmo, bem surrada e queimando óleo. Quando parou perto, quase não víamos o guia que vinha nos abordar.

  • Hola, que (quién)son los españoles que van a Santiago?

  • No, nosotros somos los brasileños y el Santa Clara! ? No meu espanhol mais puro da Galícia..kk!

  • Así entren en la Van, también los llevará allí, se nos hace tarde! ? Bem, ele que chegou atrasado, mas a bronca foi em cima de nós!

Ficamos mais alguns minutos dentro da van. Um calor infernal mostrava que a viagem ia ser realmente uma aventura. Finalmente o casal de espanhóis desceu sem muita pressa, como todo turista que se preze. Ficaram na porta esperando justamente o guia que foi abordá-los; conversaram e entraram na van. Daí veio mais um esporro que vou tentar reproduzir aqui, claro que com o tradutor, mas foi mais ou menos assim:

  • Cuando establecimos una vez que tenemos que ser puntuales, en el futuro tenemos que respetar que en el viaje! ? Meu deus, hein?!

Uma vez na Carretera Central conhecemos uma Cuba rural, de Leste a Oeste. Fomos de Havana até Santiago de Cuba, perto de Guantánamo, onde pernoitamos. Onde parávamos, eu sempre estava atento à tv na esperança de flagrar um dos intermináveis discursos de Fidel Castro. Como lá não existe agenda oficial para isso ? ele aparece ou não em ocasiões festivas -, ficava vigilante ao noticiário local, que, aliás, não era nem um pouco confiável.

Mas eu vivia atento; estávamos próximos do aniversário da tomada de Santa Clara pelas tropa rebeldes. Na volta de Santiago, dormimos em uma cidade próxima, Sancti Spíritus. No caminho eu saquei uma garrafa de bom rum cubano, fui devagar, na mesma velocidade da van, degustando aquele delicioso rum e deixando o casal de espanhóis loucos com a fumaça de um legitimo Havana que comprara no topo da famosa Sierra Maestra. A van perdeu o freio, nos forçando a ficar algumas horas aguardando, não o socorro mas o bendito freio esfriar pois, segundo o guia motorista, isso era normal?.

Pois bem, após algumas horas e muito rum, já eu gritando ?¡Viva la Revolución!? no ouvido do guia, descemos a Sierra em direção a Sancti. Claro que o guia era super desconfiado de nós dois, eu só perguntava sobre a Revolução, de como eles viviam em Cuba, como era o sistema de saúde, de ensino etc.

Acordamos em Sancti e quando ligo a tv, quem me aparece fazendo um discurso? Fidel em um comício para milhares de pessoas? e em Santa Clara, coisa de 40 km de onde estávamos. De imediato, fui em busca do guia para irmos à cidade. Conforme eu já previa ele havia sumido, e com certeza foi de propósito, pois nossa saída estava programada para aquele horário. Apareceu somente duas horas depois do programado para saírmos.

Questionado sobre o fato, ele admitiu que não tinha autorização para nos levar em um comício, poderia ser punido se fosse pego. Enfim, não fotografei Fidel como queria?

Isso é Cuba, um povo maravilhoso, um belo país, mas para quem um dia o visita, gera um misto de amor e ódio. Amor por aquele povo e por sua história, ódio por toda a repressão que estamos carecas de ver em noticiários internacionais, falta de liberdade de todas as formas? até da opção sexual! Isso pode não ter sido a ideia dos revolucionários que desembarcaram do Granma para reconstruir um novo país, tirando-o justamente de uma tirania para, sem anteverem o futuro, jogá-lo em uma outra até mais cruel.

Cuba tem avanços significantes em relação à saúde e à educação. É certo que os números não são confiáveis (como também não podemos confiar na gigante China comunista). Números são ditos como em uma lista de chamada de qualquer quartel.

Ao mesmo tempo vemos um bloqueio que não tem mais sentido. Não se impõe democracia no mundo, a democracia tem que ser conquistada, sempre foi assim, cabe exclusivamente ao povo cubano a exigência de um país mais livre? e cabe a nós engrossarmos esse grito!

Minha visão de Cuba é de um fotojornalista que lá chegou admirando a Revolução com todo os seus altos e baixos; mas viu um povo que quer ser mais do que é, nada diferente de qualquer país da América Latina, todos com uma forte veia autocrática. No caso específico de Cuba, não podemos esquecer que os Estado Unidos, que tanto os reprime, foi o grande libertador do opressor espanhol. Veja como a história é crua, direta?e paradoxal!

Não podemos ficar culpando B ou C, somos um continente colonizado sim, e isso é fato, não devemos ser anti isso ou anti aquilo, devemos buscar sempre nossas aspirações como latinos que somos, apaixonados e de sangue quente. Aí sim, cabe a frase de Che: ?Nuestro sacrificio es consciente; cuota para pagar la libertad que construimos.?