Sobre safras.

 O que é a safra?

A safra é o ano da colheita da uva que serviu para fazer um vinho ou um álcool à base de vinho. A safra, ou millésime, é a data de nascimento do vinho. Sua indicação autentica a idade do vinho e permite que o apreciador escolha, conforme seu gosto e as circunstâncias, um vinho jovem ou um vinho velho.


Além disso, é uma guia para definir um consumo ótimo. Como as colheitas, pelo menos na Europa vitícola, são muito diferentes de um ano pro outro, a indicação da safra constitui uma primeira informação sobre a possível qualidade do vinho.


Cada safra tem seu tipo, sua evolução, sua cotação, sua reputação  Por isso, toda a produção dos grandes vinhos traz a indicação da safra, que faz parte da personalidade do vinho.


Ha quem diga que ela domina o cru, é um termo francês para denominar um vinhedo específico, o que significa que há mais analogia entre os vinhos de diferentes crus de um mesmo ano do que entre vinhos de diferentes de uma mesmo vinho. As vezes é mais fácil reconhecer um safra do que um cru.


Alguns vinhos, como, por exemplo, os Champagne e os Porto, só trazem a indicação de safra quando se trata de qualidade superior.


Nunca há duas vindimas completamente idênticas e nunca se volta a fazer um vinho exatamente igual ao anterior. O clima tem papel decisivo para as uvas, pois seu amadurecimento leva por volta de quarenta e cinco dias e elas ficam no pé até seu término. 


A uva madura é muito frágil . Alguns dias de mau tempo na vindima podem comprometer tudo; em contrapartida, o sol pode produzir um sobre amadurecimento benéfico em regiões mais frias ou uma destruição em regiões muitos quentes.


A classificação das safras faz parte da erudição profissional natural que sempre surpreende ”estranhos” ao mundo do vinho. Um vinho nunca recebe como nota um valor absoluto, mas relativo a seus pares resultantes da mesma colheita. 


Difícil estabelecer com equidade a hierarquia das safras. Trata-se de comparar qualidades anuais médias para vinhos de idades variadas. Como é possível  por exemplo, comparar o modelo de 1995, síntese imaginária das denominações dessa colheita com os arquétipos 1975, 1970, 1961, que estão engarrafados há muitos anos e evoluíram diferentemente?


Compreendem-se, portanto, as discussões intermináveis provocadas por essas classificações  No entanto, com o tempo se estabelece um amplo acordo entre degustadores quanto ao nível e à homogeneidade das safras.


Conforme os anos, determinado cru, determinada região, determinada cepa pode se destacar. A hierarquia das safras pode ser diferente entre os Médoc e o Saint-Emilion; com frequência é muito diferente entre os brancos secos de Graves e os licorosos de Sauternes, dentro de um mesmo cantão; nas outras regiões da França, ela pode ser inversa. 


Cada um pode discutir um determinado detalhe, mas a hierarquia permanece. Conhecemos gloriosas safras isoladas:

  • 1945
  • 1947
  • 1949

Agrupadas por pares:

- 1928 – 1929
- 1961 – 1962 - 1975 – 1976

Mais raramente por três, em Bordeux:

- 1988 – 1989 – 1990


Todos os apreciadores bem conhecem as inúmeras tabelas das safras editadas pelas empresas, pelas organizações vitícolas, pela imprensa especializada e pelas agendas!

 





Atribuem-se pontos com um máximo de 20, estrelas, garrafas, copos.  Indicam-se a qualidade atual ou futura e a data ótima de consumo. Nem sempre existe acordo sobre essas classificações por toda parte há não-conformistas, provocadores e até mesmo ignorantes.


Uma simplificação enganadora seria separar as safras em duas categorias: boas e as más. 

Tornou-se mais justo dizer: ”Já não há anos ruins, há apenas anos difíceis ” A seleção das vindimas e as técnicas modernas permitem tirar o melhor partido de cada uva e obter sempre o melhor vinho possível.


Alguns apreciadores de pouca imaginação restringem suas experiencias aos grandes vinhos das grandes safras. Ele ignoram a formula do comprador hábil  ”Petits crus, pequenos anos; grand crus, grandes anos.” 

Muito já se gracejou sobre a volta frequente da expressão ”safra do século”. No entanto, cada geração precisa ter a sua! Para nós, existe apenas uma safra do século e fica em Bordeaux, obra ao mesmo tempo de um clima excepcional e de uma tecnologia moderna: 1961.

Foi preciso esquecer os 1975 durante quinze a vinte anos. Quanto aos 1928, 1929, 1945 existem ainda raríssimos exemplares. Além do mais, nunca foram plenamente satisfatórios.


Durante muito tempo a enologia teve de lutar contra seus defeitos de uma outra época.


As safras recentes que reivindicam atualmente o titulo secular são 1982,1985 ou ainda 1990. O ano 2000 tem uma magia mais numérica do que enológica. 


O futuro julgará por seu comportamento e pelas qualidades dos concorrentes que virão.

BRUNA HELD – brunaheld@gmail.com