Sobrevivente do espelho cego

A anorexia faz com que a vida vire um pesadelo. Diariamente me deparo com vários casos que chocam pela gravidade da doença. Muitos jovens não resistem e morrem. Outros conseguem batalhar para enfrentar o problema. Eu sou uma das sobreviventes do transtorno alimentar!

A busca pelo corpo “ideal” começou aos 12 anos. As inúmeras dietas e as várias horas na academia viraram obsessão. Já faz quase cinco anos que passei a olhar a realidade pelo espelho. E em outubro de 2013 criei coragem para compartilhar todas as experiências pelo blogDespedida de Ana e Mia”, como forma de alertar as pessoas, os pais e a sociedade.

Enfrentei a anorexia e a bulimia e tenho propriedade para afirmar que magreza em excesso não é sinônimo de saúde, muito menos de felicidade.

O transtorno alimentar distorce a imagem que a pessoa tem dela mesma. Quando todos me diziam que eu estava horrível e acabando com a minha vida, me olhava no espelho e ficava satisfeita com os ossos à mostra, mas ainda não era suficiente. Queria emagrecer cada vez mais. Cada vez mais.

Minha maior necessidade era ser definida pela aparência, e acabava anulando outros fatores como a própria personalidade. Eu tinha um medo enorme de morrer, mas o maior dos medos era de engordar.

Tenho 1,73m de altura e cheguei a pesar 48 kg. Meus cabelos caíam, minhas unhas não cresciam mais, sentia muito frio e meu coração batia mais devagar. Não me lembro de ser feliz. Já não saia mais de casa, não sorria como antes e não tinha sonhos, além do desejo de ser magra. Meu mundo ficou sem cor. Sinto que minha vida ficou em preto e branco todo aquele tempo.

A maior dor não era a do estômago vazio. Era a do sofrimento que eu via os meus pais passarem. Minha mãe não via lógica na minha obcecada vontade de perder peso. Por isso, não compreendia e passamos a discutir muito. Hoje eu sei que tudo era por amor. Meu pai, que sempre foi meu melhor amigo, tinha medo de me abraçar porque achava que poderia me machucar, e também não entendia como a menina alegre de quem ele sempre se orgulhou, tinha mudado tanto.

A família toda fica doente, não só o anoréxico ou bulímico. Todos precisam fazer tratamento. Fui acompanhada por psicólogo, psiquiatra e nutricionista. A terapeuta me orientou a escrever um diário com as angústias e os sofrimentos de todas as experiências ao longo do transtorno. Resolvi, então, expor os relatos pelo blog, e assim levar esperança para quem passa pela mesma situação. A causa da anorexia, o dever da família, como agir…

Melhorei quando percebi que as coisas mais importantes são ter uma carreira, um corpo saudável e muito amor pela família e amigos. Hoje eu vejo um lado positivo por tudo que passei: minhas experiências podem ajudar outras pessoas que sofrem do mesmo problema. É preciso ter fé e coragem. E é exatamente isso que quero transmitir por meio do Despedida de Ana e Mia e por aqui, no blog do Elefante Verde.

Sinto que minha recuperação teria sido mais rápida se eu tivesse conhecido histórias de pessoas que conseguiram vencer o* transtorno alimentar. Portanto, quero ser esta pessoa para aqueles que passam pelo mesmo sofrimento que me acompanhou por tantos anos. E prometo ajudar não só aqueles que estão com *anorexia, bulimia, compulsão, vigorexia, ortorexia… Mas também aqueles que não estão gostando do que enxergam no espelho. Nós precisamos nos amar mais, nós podemos nos amar mais, do jeito que somos.

Meu grande objetivo é de fundar uma ONG que servirá como grupo de apoio, oferecendo tratamento gratuito com uma equipe multidisciplinar para pessoas com transtorno alimentar. Para isso, estou em busca de parceiros, patrocinadores e especialistas que queiram anunciar no blog.

O espelho cego tem solução, basta querer. Depois de muitos diálogos e persistência, eu meu curei e me despedi de Ana (anorexia) e Mia (bulimia). Elas não me pertencem mais!