Stevie Wonder. Nada mais.

Stevie WonderStevie Wonder

A ciência já comprovou que, ao serem privados de algum sentido, seres humanos acabam por desenvolver os demais com uma capacidade superior, tentando compensar a perda. No caso de Stevie Wonder, a visão que lhe foi negada como resultado de um nascimento prematuro acabou por proporcionar uma audição espetacular. A musicalidade deste estadunidense nascido em Michigan, em 1950, é sem igual: Stevie consegue, desde 1963, produzir pérolas nos mais variados estilos. Ele brinca com o jazz, o blues, o reggae, o rhythm and blues e quando Michael Jackson estourou com as músicas de Thriller, logo depois ele encaixou Part-Time Lover nas paradas, como que dizendo: “também sei fazer”.

Em 1996, finalmente foi lançada uma coletânea da extensa obra de Stevie. Ele tinha 46 anos à época, mas já estava na estrada havia 35, desde 1961. É o único astro infantil de que consigo me lembrar que não sucumbiu ao sucesso e manteve-se em alta, por tanto tempo. Song Review, a compilação, incluiu o máximo que um CD permitiria, 80 minutos. 21 canções. E faltou espaço, teria de ser um álbum duplo.  Afinal, foram mais de 30 canções no top ten e 25 Grammy, um recorde absoluto.

Não bastasse isso, Stevie ainda esculacha. Toca tudo o que possa imaginar que tenha teclas pretas e brancas, (Ebony and Ivory, lembra do dueto com Paul McCartney?), bateria, guitarra, sem contar a gaita. Requisitada por Carly Simon, Djavan, Eurythmics e tantos outros nos anos 80, que fizemos um Mondo Pop só com suas contribuições. E canta, o danado. Tente reproduzir sua performance alcançando as notas que Stevie Wonder alcança, com o fraseado que ele impõe às suas canções. Você vai sofrer horrores.

E além de tudo, nada tem de coitadinho: Tuta, da Jovem Pan (o pai, não o filho, que dirige a Pan 2) conta que, na época da TV Record, Stevie iria se apresentar em dos shows do dia 7, que a emissora produzia. Exigiu pagamento antecipado. E em dinheiro, temeroso de levar um calote. Fez a emissora toda correr atrás de dinheiro para pagar o seu cachê, à noite, na São Paulo provinciana dos anos 1960. No money, no show.  Recebeu e deu seu show habitual.

Trilhas de filmes, música infantil, baladas, pense o que quiser. Stevie Wonder faz. E faz com tamanha qualidade e facilidade que me faz pensar se reuniria a mesma capacidade se tivesse desfrutado da faculdade de enxergar as coisas. A sensibilidade demonstrada  em canções como Ribbon in the Sky, Isn´t She Lovely e Overjoyed, repletas de imagens e recursos visuais, é acachapante. A impressão que fica é que Stevie Wonder enxerga melhor do que todos nós.