Trem das Onze forever

Adoniran, Uma BiografiaAdoniran, Uma Biografia

Em 2000, a Globo São Paulo fez uma enquete para escolher a música a representar a capital do estado. São Paulo, São Paulo, do Premê, Lampião de Gás, peça do repertório de Inezita Barroso era concorrente também, bem como Sampa, uma homenagem torta à cidade que acolheu Caetano Veloso à época dos festivais. Felizmente, para a coerência e para reverenciar a história de seu compositor, Trem das Onze levou a melhor. Adoniran Barbosa é a verdadeira melhor tradução da pauliceia. Duvida? Leia Brás, Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado e você reconhecerá a cidade que recebeu o jovem João Rubinato, à procura de um trabalhinho e muita boemia há quase 100 anos. O livro clássico, sempre exigido nos vestibulares, pouca gente leu. A música de Adoniran, todos conhecem.

Adoniran sempre foi subestimado, e fica nítido o carinho com que Celso de Campos Jr. construiu sua narrativa, em Adoniran: uma biografia, meio que fazendo um afago póstumo em um sambista que sofreu com o menosprezo de Vinícius de Moraes, mesmo contribuindo com uma melodia inspirada para a letra do poetinha em Bom Dia, Tristeza, que ficou escanteado pela emissora que veiculou suas performances mais inspiradas como comediante, a Record, e se via inferior aos medalhões da MPB que circulavam pela cena dos anos 1960 e 1970, como Elis Regina.

Adoniran foi pioneiro em trazer para a música popular feita em São Paulo o linguajar com que o povo se expressava nas malocas e nas ruas do centro antigo de São Paulo, então em ebulição. Desde o nascimento, em Valinhos, o menino se notabilizou em captar a essência dos biscateiros (pois foi um), dos boêmios (tinha carteirinha nos botecos do centrão), e ninguém podia falar deste universo com tanta veracidade. Mais do que isso, Adoniran ainda conseguia transformar em letra e melodia pequenas crônicas do cotidiano paulistano, abraçadas por pobres e ricos, letrados e analfabetos.

Em minhas noitadas à saída da faculdade, bastava alguém puxar Saudosa Maloca para ser seguido sem discussão. Adoniran era a molécula que faltava para incendiar a atmosfera fria de São Paulo. Túmulo do samba? Ele fazia o Rio cantar com o erre arrastado o sotaque permeado do português caótico falado pelo povo de Piratininga.

Ouvir Elis cantar Tiro ao Álvaro, demonstrando prazer ao lado do mestre ao interpretar a letra cheia de um falar plebeu que trazia a sabedoria de quem realmente conhece as agruras da vida é um tributo ao gênio do parceiro (e mentor, em vários momentos) Osvaldo Moles e a Adoniran. E pensar que Adoniran duvidou até o último momento que Elis apareceria no estúdio para gravar. Melhor. Humilde, Adoniran nunca se considerou um gênio, e continuou sendo até sua morte em 1980. Artistas que se arvoram de genialidade costumam perder a essência.