Um brinde aos monges!

Pois bem, acabo de voltar de uma viagem à Europa. Fui a trabalho, mas pude matar um pouco da minha curiosidade a respeito das culturas cervejeiras milenares que nos deram referências sobre as cervejas que bebemos nos dias de hoje. Como apaixonada e estudiosa do assunto não poderia deixar de prestar atenção no comportamento, nas paisagens e na cultura dos três países que deram origem as três Escolas Cervejeiras, a Bélgica, a Alemanha e a Inglaterra.

Por motivos históricos, religiosos, culturais e geográficos estes países acabaram por deixar de lado a cultura do vinho, a bebida sagrada dos católicos e passaram a produzir cervejas. O terroir, famoso nome dado a todas as condições climáticas e geográficas que dão origem a bons vinhos não era o forte destes países. O* terroir* destes países não lhes dava condições de cultivar boas uvas para produção de vinhos, com exceção de alguns bons vinhos brancos alemães, mas que necessitam de condições muito especiais para resultarem em boas safras, o que nem sempre acontece.

A cerveja ao contrário do vinho, não necessita de um* terroir* tão rigoroso, uma vez que a produção de cevada, de outros cereais e do lúpulo dependem, é claro, de condições climáticas, mas que influenciam de maneira muito mais sutil nos produtos finais e nunca inviabilizam a produção de uma boa cerveja. Tudo vai depender da habilidade do mestre cervejeiro em utilizar os ingredientes certos para obter os resultados desejados.

A Bélgica foi o primeiro país cervejeiro que visitei na Europa. Sou uma amante não apenas da Escola Belga, mas muito mais da ideia que os Belgas transmitiram ao mundo. Muito mais do que cervejas extremamente complexas, encorpadas, perfumadas, alcoólicas e tudo o mais pelo qual eles são admirados, o que mais me apaixona é a liberdade de expressão que existe na Bélgica.

Fiquei mais curiosa para buscar na história do país  questões além das que já conheço e que me levem ao pleno entendimento da cultura belga. Um país tão pequeno e que fala três línguas, alemão, francês e flamenco não poderia deixar de ser complexo, e para nossa sorte isso se reflete nas famosas cervejas belgas.

A cultura cervejeira na Europa não teve inicio dentro dos monastérios, mas a partir de certo período passaram a ser produzidas quase que exclusivamente dentro deles, assim como os vinhos em outros países. Os monges produziam cervejas para consumo próprio, principalmente as que eram consumidas no período da quaresma, época em que não podiam consumir alimentos sólidos. A cerveja passou a ser o alimento líquido dos monges.

Para garantir boas ?refeições? líquidas, os monges capricharam no malte, criando cervejas mais encorpadas que consequentemente se tornavam mais alcoólicas, devido ao alto teor de açúcares que os amidos presentes no malte proporcionavam. Outros ingredientes faziam partes das receitas como cereais adicionais a cevada, que conferem maciez e espuma fantásticos a elas, além das especiarias, ervas e frutas, o que lhes conferiam aromas e sabores muito agradáveis e diferenciados.

O aperfeiçoamento das técnicas de produção durante séculos deixaram as cervejas extremamente agradáveis de serem consumidas e a diversidade de estilos permite que paladares diferentes se entusiasmem com elas.

Muitos monastérios continuam a produzir cervejas, e alguns deles possuem um selo, que é uma espécie de certificado de qualidade, são as cervejas trapistas. Existem outros monastérios que também fazem cervejas de qualidade mais que não possuem o tal selo. Outras cervejarias antiquíssimas, algumas familiares, também fazem cervejas fantásticas.

Em suma, de todo o universo cervejeiro, o belga é o que menos se preocupa em categorizar suas cervejas em determinado estilo, eles querem apenas fazer cerveja, cerveja boa!!! Visitei lá uma cervejaria familiar que é a última no mundo a utilizar o equipamento a vapor, a ?Brasserie du Vapor?.

Sugiro aos iniciantes neste universo que degustem algumas cervejas belgas consideradas referência nos seus estilos:

St. Bernardus Wit

Wesmalle Dubbel

* Maredsous 10 (Tripel)*

St. Bernardus abt 12.

Beba com moderação!!!

Cheers!!!