Um livro

Quando eu estava na faculdade, um professor exibiu o filme ?Fahrenheit 451? para a minha classe. Dirigido por François Truffaut, o longa mostra uma sociedade (talvez futurística, dentro dos padrões da época, se levarmos em conta que o título data de 1966), em que era crime manter livros em casa. Os bombeiros, em vez de apagarem incêndios, eram responsáveis por buscar e queimar quaisquer livros que escapassem ilesos, guardados por ?criminosos? que, se descobertos, enfrentariam as mais terríveis punições.

Um destes ?bombeiros incendiários?, no entanto, salva um livro da destruição, curioso em entender o motivo pelo qual aquele objeto poderia ser tão perigoso. Não demora muito, ele também descobre uma comunidade onde as pessoas funcionam como ?livros?. Cada um decora um livro e conta para os demais suas histórias, dividindo seu conhecimento.

Há uma cena em que um homem idoso começa a ensinar para uma criança o conteúdo que guarda, para que ele não se perca com ele quando morrer. No grupo, as pessoas são conhecidas pelo nome dos livros que guardam em suas mentes.

É um filme que vale a pena ser visto, em especial por conta das discussões que pode levantar, gerando a reflexão. Entre meus colegas, o professor questionou qual o livro cada um de nós seria. Na época, não percebemos que a pergunta não teria uma resposta simples como ?Dom Casmurro?, como um de meus colegas respondeu, sem justificativa alguma. Talvez o que ele realmente quisesse saber entre aqueles estudantes de jornalismo era qual livro nos passou uma mensagem marcante e que gostaríamos de transmitir. Ou, indo mais além, qual a nossa responsabilidade no papel de elo entre o fato e o público.

Ao meu entender, a mensagem do filme seria que ler é algo extremamente importante, pois a leitura gera reflexão, que resulta em questionamento. É a articulação do pensamento contra a simples aceitação de tudo que chega até nós. Truffaut mostrou isso em um filme em que a capacidade de argumentação era eliminada em livros queimados. Hitler fez isto, assim como muitas ideologias e seus porta-vozes têm feito ao longo da história.

Ainda hoje penso sobre isso e confesso que ainda não sei qual livro gostaria de ser ou de ?transmitir?. Muitos, certamente, pois cada livro lido é uma mensagem a mais, um novo aprendizado, uma nova reflexão. Gosto de pensar que sou o livro que leio no momento.

Seguindo esta linha de raciocínio, acredito que já fui muitos livros. Não tantos quanto eu gostaria (ou até mesmo deveria). E os benefícios da leitura são tantos, que vão muito além de nos ensinar a escrever melhor. Ler estimula a criatividade, pois nenhum filme é capaz de reproduzir os efeitos especiais proporcionados por nossa mente. Nenhum personagem é tão bonito, cruel ou assustador como somente a nossa imaginação pode criar. Tudo a partir das palavras de um escritor, que também imaginou aquilo, de uma maneira completamente diferente.

Ler é um exercício, um prazer, uma diversão, um aprendizado. Há tantos livros que eu ainda quero ser?  E você, que livro seria?

Amanda de Almeida