Uma herança feita de símbolos

A escrita pode ser elencada como uma das maiores realizações culturais da humanidade. Uma invenção que permitiu transmitir às sucessivas gerações humanas o legado de conhecimentos acumulados pela coletividade. Fixar a palavra falada é ir além da fala momentânea e da memória pessoal, porque o que está escrito pode ser resgatado e examinado por inúmeras pessoas ? contemporâneas ou de gerações distintas. Assim, a escrita exige de quem escreve uma postura diferente de quem apenas fala, de mais rigor e clareza, o que desenvolve o espírito crítico.

hieroglifo egipicioÉ interessante observar que a palavra escrever origina-se do latim ?scribere? e significa gravar, marcar, desenhar, representar por sinais gráficos. A escrita, portanto, é a representação gráfica do sistema de símbolos que compõem a linguagem. Os símbolos ou o conjunto de símbolos, por sua vez, são sinais, marcas, signos que assumem o lugar do objeto representado. Os primeiros registros conhecidos de símbolos aparecem concomitantemente ao desenvolvimento das civilizações. Um passeio pela Antiguidade permite remontar essa fabulosa aventura humana pelo mundo dos símbolos grafados.

A viagem começa no Oriente Médio, mais precisamente sobre a região do atual Iraque, na porção em que os rios Tigre e Eufrates desembocam no Golfo Pérsico. A essa região deu-se o nome de Mesopotâmia, ?terra entre rios?. Ali, por volta de 3500 a. C., viviam os sumérios, o primeiro povo a conquistar a hegemonia de uma das maiores civilizações que existiram na Antiguidade. Atribui-se a eles uma série de realizações culturais, dentre as quais se destaca a escrita.

escritaOs primeiros traços da escrita sumeriana constituíam-se de pictogramas, um conjunto de pequenos desenhos ou sinais que pretendiam fixar e representar os objetos do cotidiano: o trigo, a cevada, os pássaros, as estrelas, o sol e etc. Com o passar do tempo, os pictogramas passaram por simplificações e se transformaram na escrita cuneiforme. Nela, ainda sobre placas de barro, os símbolos eram traçados com estilete em forma de cunha, o que determinou o formato dos sinais.

Para os sumérios, escrita começou destinada ao registro do patrimônio acumulado pelo templo; em seguida, passou a registrar também textos religiosos, literários e jurídicos. Por volta de 2000 a. C., o domínio da região passou às mãos dos amoritas, também conhecidos como babilônios, que procuraram conservar este sistema de escrita. Os amoritas ficaram conhecidos por elaborar o primeiro código de leis escritas de que se tem conhecimento: o Código de Hamurabi. Supostamente de 1700 a. C., o código é um monumento talhado em rocha em cuja superfície se dispõe um texto denso de leis em escrita cuneiforme arcádica.

A viagem segue seu curso em direção ao continente africano, no outro extremo do Crescente Fértil, às margens do delta do Nilo, rio que desemboca no sudeste do mar Mediterrâneo. É o berço da grande civilização egípcia. Percorrendo as castas que compunham a sociedade egípcia no milênio IV antes de Cristo, logo se destaca a dos escribas. Um grupo poderoso formado apenas por homens que sabiam ler e escrever ? um privilégio raro no Egito Antigo.

HieroglifosOs escribas escreviam sobre folhas produzidas com tiras de cana que se chamavam papiro. Para escrever, utilizavam uma espécie de caneta construída com um caniço aparado e tinta preta à base de nanquim. À semelhança dos sumérios, a escrita egípcia constituía-se de pictogramas, ou pequenos símbolos, que representavam objetos concretos. Aos poucos, os símbolos foram se combinando e começam a representar ideias abstratas. Os sinais da escrita egípcia, entretanto, receberam uma denominação particular: hieróglifo.

A palavra de origem grega hieróglifo é composta de ouras duas: hiero, que significa sagrado, e glifo, que significa escultura. Hieróglifo, portanto, quer dizer sinais sagrados. Os egípcios consideravam os hieróglifos como palavras divinas; e a escrita, uma dádiva oferecida pelo deus Thot aos homens. Para os egípcios, a escrita tinha a função primordial de registrar aspectos ligados à religião. Um dos mais famosos livros desta época é o ?Livro dos mortos?. Como uma das oferendas deixadas nos sarcófagos junto às múmias, essa coleção de textos religiosos oferecia à alma do morto instruções detalhadas de como se comportar para agradar ao deus Osíris no Tribunal e para enfrentar os perigos da vida eterna. A chave para a decifração da escrita do Egito Antigo só ocorreu em 1822, quando o francês Jean-François Champollion (1790 ?1832) conseguiu traduzir um texto hieroglífico gravado na Pedra de Roseta.

Essa aventura não cessa por aqui. Uma revolução está prestes a acontecer. O novo itinerário agora é uma estreita faixa de terra às margens do Mediterrâneo que corresponde ao atual Líbano e a parte da Síria. Ali, um pouco antes do ano 1000 a. C., espremidos entre o mar e as montanhas do Líbano, viviam os fenícios. Diante da escassez de terras férteis e sem alternativas, os fenícios lançaram-se ao comércio marítimo, tornando-se os maiores navegadores da Antiguidade. Comerciantes por natureza, os fenícios precisavam encontrar um modo de escrita simples e prático para relacionarem as suas mercadorias e registrarem suas atividades. É dessa necessidade que nasce a maior contribuição cultural dos fenícios: a prodigiosa invenção do alfabeto.

Em comparação com a escrita cuneiforme e os hieróglifos, o alfabeto fenício era bem mais simples. Composto de apenas 22 sinais consonantais, cada um deles era uma letra que representava um som, e não mais uma palavra completa ou sílaba fonética. Combinando as letras entre si, era possível exprimir todos os sons de uma língua falada. Ao invés de centenas de símbolos, agora bastavam somente 22 letras. Era o início de uma revolução na história da escrita humana.

Impulsionada pelas relações comerciais, a grande invenção rompeu os limites da Fenícia e se expandiu por todo o mar Mediterrâneo, tornando-se o ancestral comum dos alfabetos hebreu, árabe, indiano, entre outros, em especial, o grego. Inspirados pelo alfabeto fenício, os gregos criaram um alfabeto aperfeiçoado no qual foram incorporadas as letras vogais. Mais tarde, absorvendo a cultura dos diversos povos que integraram seu vasto império, os romanos utilizaram o alfabeto grego como base para a formação do alfabeto latino, que é o mais utilizado atualmente.

Chinese Collector Displays Calligraphy VariationsFinalmente, o último destino dessa viagem é a porção oriental do continente asiático, na China. Com a mais longa tradição cultural do mundo, a China conta com uma história contínua de mais de 3000 anos. Assim, a função da escrita chinesa vai muito além do registro gráfico dos objetos. Ela é uma pintura, um gesto, um sentimento, uma arte. Para eles, a mais nobre das artes. Chamada de caligrafia, a escrita chinesa requer o uso de materiais específicos, já que a qualidade do traço é parte fundamental e deve notabilizar-se pela perfeição.

Escrita_chinesa

A escrita chinesa também partiu de pictogramas, ou pequenos sinais arbitrários, que representavam uma palavra ou parte dela. Os sinais proliferaram e foram estandardizados: ainda hoje são os mesmos que apareceram no milênio II antes de Cristo. Diferente das letras de um alfabeto, os caracteres chineses são símbolos que representam uma palavra. Com muita poesia, a junção de dois caracteres produz um novo, com significado distinto, porém interligado aos antecedentes.

Chega ao fim essa viagem pelo mundo dos símbolos grafados, pela história da escrita. Uma história que começou na Antiguidade e, transcendendo as barreiras do tempo e do espaço, chegou aos dias atuais. A herança cultural dessa invenção é para sempre, pelo menos enquanto os símbolos passarem de geração em geração.

Gabriela Banon