Várias civilizações, uma única testemunha

Nenhuma porção de água salgada do planeta exerceu tamanha hegemonia sobre o desenvolvimento das civilizações na Antiguidade como o mar Mediterrâneo. A própria origem da palavra já faz referência à localização privilegiada desse mar: em latim, mediterraneus significa ?que está no meio de terras?.

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Como um grande lago, o mar Mediterrâneo encerra-se entre o litoral sul da Europa, a porção ocidental da Ásia e a faixa costeira da África do Norte. A oeste, abre-se para a imensidão do oceano Atlântico por meio de uma passagem afunilada: o Estreito de Gibraltar. A leste, aproxima-se do mar Vermelho e do Golfo Pérsico. Ao norte, comunica-se com o mar Negro pelos estreitos de Bósforo e de Dardanelos e, consequentemente, com o interior da Ásia.

Num tempo em que o transporte marítimo era concomitantemente mais ágil e menos oneroso que o terrestre para o deslocamento de carga e de passageiros, o mar Mediterrâneo mostrava-se perfeito, sobretudo, em sua porção oriental. O relevo acidentado com inúmeras reentrâncias da costa, a infinidade de ilhas pontilhando o mar, os estreitamentos entre duas porções próximas de terras, tudo favorecia a navegação.

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A escolha por atividades essencialmente comerciais e marítimas pelos povos que ladearam as costas do Mediterrâneo não é obra do acaso. O mar Mediterrâneo é majoritariamente cercado por altas montanhas (Pirineus, Apeninos e Alpes, na Europa; Montes Atlas, na África; Montes Taurus, Monte Líbano, Monte Carmelo, na Ásia) que isolam estreitas faixas de planície litorânea. De um lado, o mar; do outro, as montanhas. Na Antiguidade, essa situação impeliu o homem a lançar-se à navegação marítima para o estabelecimento de relações comerciais com povos vizinhos.

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Avançando um pouco na História, nota-se que um fato marcante envolvendo o mar Mediterrâneo mudou a rota dos acontecimentos históricos. O ano era 1453. O Império Otomano, tendo conquistado a cidade de Constantinopla (atual Istambul), decidiu impedir a navegação europeia no Mediterrâneo oriental. Com o fechamento da rota usual, portugueses e espanhóis viram-se obrigados a buscar um caminho às Índias pelo Atlântico. Foi o passo inicial para a chegada espanhola e portuguesa às terras da América.

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Assim, é interessante observar que as águas salgadas do Mediterrâneo serviram de palco para encontros culturais históricos, para inter-relações comerciais intensas e para confrontos políticos importantes. Unindo os continentes africano, asiático e europeu, o ?mar entre terras? definiu os rumos da vida política, econômica, social e cultural das civilizações e dos impérios que despontaram às suas margens. Cinco deles sobressaíram pelo legado histórico deixado.

O primeiro itinerário dessa viagem é Creta, a maior ilha do mar Egeu ? uma das subdivisões do mar Mediterrâneo. A economia rica e diversificada, a localização estratégica entre a Grécia e o Crescente Fértil, o povo cretense habilidoso com o artesanato e fascinado pela navegação, todos estes aspectos concorreram para que a ilha de Creta formasse, a partir de 1700 a.C., o primeiro império marítimo da História ou talassocracia (palavra derivada da concatenação de dois termos gregos: talassos, que significa ?mar?, e cracia, que significa ?poder?). As fabulosas embarcações cretenses de até 20 metros de comprimentos veiculavam quer seja vasos com azeite, vinho e artesanatos em cerâmica e em metal, para vender a diferentes localidades do Mundo Antigo, quer seja minérios, marfim e perfumes, que compravam de outros povos. Aos poucos, os mercadores cretenses conquistaram o monopólio do comércio no mar Mediterrâneo. A hegemonia perdurou até meados do século XIV a.C., quando a ilha foi invadida e subjugada pelos aqueus. O domínio pelos guerreiros dórios, em XII a.C., levou definitivamente ao colapso a civilização cretense.

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A viagem segue, agora, ao território corresponde ao atual Líbano e a parte da Síria. Ali, a partir de 2000 a.C., numa faixa de terra comprimida entre o Mediterrâneo e as montanhas, desenvolveu-se a civilização Fenícia. As condições geográficas desfavoráveis não deixaram outra opção aos fenícios senão lançar-se à navegação comercial marítima. Seus barcos a remo e a vela importavam da Mesopotâmia tecidos, vestimentas e tapetes; da Arábia, marfim, ébano, essência aromáticas e ouro; e da Ásia Menor, cavalos. As matérias-primas eram, então, transformadas pelas habilidosas mãos dos fenícios em armas de ferro e bronze, vasos de cerâmica, joias, tecidos de lã tingidos com corante extraído de concha, objetos de vidro transparente e colorido, tudo para futura exportação. Exímios navegadores, os fenícios dirigiram-se à península Ibérica em busca de metais, alcançaram a atual Inglaterra e realizaram viagens ao redor do continente africano. Chegaram a fundar feitorias e colônias ? Cartago foi uma das que mais se destacaram ? que lhes serviam de entrepostos comerciais. Além dos produtos e escravos que veiculavam, os barcos fenícios foram um ótimo condutor do alfabeto, a principal contribuição cultural desse povo.

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A viagem retorna ao ponto de partida, o mar Egeu, porém o novo itinerário é a península Ática. No centro dessa planície, a poucos quilômetros do mar e protegida por colinas áridas, surgiu a cidade de Atenas ? hoje, capital da Grécia. Diante da infertilidade do solo e da proximidade com o litoral, os atenienses encontraram na navegação marítima uma saída. Mãos escravas movimentavam o artesanato urbano e abasteciam os navios atenienses de lã, armas, objetos de cerâmica e vidro e vasos com azeite e vinho. Ao regressarem, esses mesmos navios traziam alimentos (trigo, peixe seco, carne salgada, queijo e frutas), matérias-primas (metais, madeira, marfim, pele e linho) e produtos manufaturados (tapetes, tecidos e perfumes). As operações comerciais atenienses ocorriam, sobretudo, nas colônias, localizadas no litoral do mar Mediterrâneo e do mar Negro. Aos poucos, um sistema monetário começou a substituir a simples troca de mercadorias, facilitando o comércio, porque os mercadores aceitavam moedas quando nenhum dos artigos lhes agradava.

Entre os séculos V e IV a.C., o conflito entre a expansão concomitante do mundo grego e do império persa desencadeou as chamadas Guerras Médicas ? nome derivado dos medos, povos que ocupavam a Pérsia. A união das cidades gregas e a criação de uma poderosa frota ateniense permitiram que a ofensiva persa fosse vencida. O mar Mediterrâneo também intercedeu pelos gregos. Em 480 a.C., na Batalha naval de Salamina, as águas calmas do Mediterrâneo foram perturbadas por uma forte ventania que empurrou os barcos persas contra a costa rochosa da Grécia, furando seus cascos e entrelaçando de forma caótica seus remos. Liderando a confederação de cidades gregas mobilizadas contra os persas, Atenas transformou-se no grande centro comercial e marítimo do Mediterrâneo, alcançando um expressivo desenvolvimento econômico e cultural por alguns anos.

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Nesse passeio pela História, o próximo destino é a Macedônia, um reino ao norte da Grécia, de onde, em 336 a.C., partiu Alexandre Magno. Conhecido pelas façanhas de suas conquistas militares, Alexandre dominou a Grécia e partiu em direção ao Oriente, obtendo vitórias na Ásia Menor, no Egito, na Mesopotâmia, na Pérsia e até em regiões da Índia (vale do rio Indo). À medida que conquistava os povos asiáticos, Alexandre criava condições para a fusão das culturas dos ?bárbaros? (povos que não falavam a língua grega) com os valores gregos. Desse processo nasceu o helenismo, manifestação cultural que atravessou o Mediterrâneo e se propagou por todo o Império macedônico.

Finalmente, essa viagem chega ao seu último itinerário: Roma, a sede do maior Império da Antiguidade ? hoje, capital da Itália. Após o domínio completo da península Itálica, os romanos lançaram-se à conquista do Mediterrâneo. Entretanto, a expansão romana entrou em choque com Cartago, antiga colônia fenícia no norte da África, que dominava o comércio marítimo do Mediterrâneo. Entre os séculos III e II a.C., as rivalidades entre romanos e cartagineses desencadearam as Guerras Púnicas ? termo derivado de poeni (fenícios), a forma como os romanos chamavam os cartagineses. Eliminando a concorrência cartaginesa, os romanos abriram caminho para a expansão pelo Mediterrâneo oriental (Macedônia, Grécia, Ásia Menor) e ocidental (península Ibérica e Gália). Assim, o mar Mediterrâneo transformou-se num lago inteiramente controlado pelos romanos, o Mare nostrum (?nosso mar?). Navegando pelo Mediterrâneo em embarcações gigantescas de até 50 metros de comprimento, escravos, mercadores e soldados romanos conduziram não só mercadorias, mas também ideias (modo de pensar absorvido da cultura grega) e crenças religiosas (religiões orientais e o cristianismo).

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Embora essa viagem tenha chegado ao fim, a História não para por aqui. Com o passar dos anos, o mar Mediterrâneo continuou sendo palco de inúmeros reencontros e confrontos entre europeus, asiáticos e africanos. À medida que suas águas salgadas conduziam homens, animais, metais, marfim, artesanatos, armas, tecidos, tapetes, perfumes, alimentos, cultura, ideias e crenças religiosas, os rumos da História mudavam. Várias civilizações e impérios da Antiguidade floresceram e desapareceram às margens do Mediterrâneo, e o maravilhoso mar permaneceu, como testemunha desse grande espetáculo chamado História.

Gabriela Banon